Unhas da mão esquerda pintadas, tatuagem de escorpião no braço direito, irreverência e um domínio das palavras, Fabrício Carpi Nejar, ou Carpinejar, na sua opção pela união dos sobrenomes, 37 anos, venceu o Jabuti 2009 na categoria contos e crônicas com Canalha! e vai receber seu prêmio no dia 4 de novembro, quando concorre, também, ao melhor livro do ano.
Carpinejar recebeu o ABC Domingo no seu “cantinho” na casa da mãe, Maria Carpi, em Porto Alegre. Na sua simpatia peculiar, o poeta falou sobre o livro em que defende o machismo poético e sobre poesia: “Ninguém sai de si por conta própria”.
Tu és um poeta, sempre foi conhecido e reconhecido pelas poesias. Como é ganhar um prêmio importante como Jabuti de um livro de crônicas, como ocorreu com Canalha!?
Fabrício Carpinejar – É da poesia surpreender. O poeta insinua um caminho e vai para outro. Acho que o poema acabou fazendo isso comigo. É daquelas traquinagens maravilhosas e deliciosas, que é tão bom porque eu não deixo de pensar poeticamente na crônica. Ela funciona como se fosse uma conversa. Ela tem aquele prazer do cafezinho, aquele prazer da prosa miúda, da varanda, dos farelos do pão na mesa. A crônica é justamente quando a literatura transborda da página.
Na tua opinião há equivalência entre o poeta e o cronista?
Carpinejar – Tem. O que eu tento controlar na crônica é justamente o poema. O poema tem que ser o tempero, não pode ser toda a comida. A crônica eu acho que tem esse equilíbrio entre o humor e o lirismo e justamente uma autocrítica. Tu ter a capacidade de rir de si para poder rir dos outros.
O Canalha! fala do homem contemporâneo, retira rótulos. Como surgiu a inspiração para desenvolver esse tema no livro?
Carpinejar – Eu percebi esta crise do masculino. Esta vertigem. Porque o homem assistiu a mulher avançar, ocupar o seu lugar, criar seu espaço. Ele ficou parado como se estivesse pronto. Ele não poderia continuar sendo uma caricatura. A questão é que o homem, e eu defendo isso, perdeu muito tempo provando a sua masculinidade. Homem que é homem não precisa provar e o Canalha! é recuperar esta figura sedutora e eu defendo uma espécie de machismo poético.
Esse machismo poético é o canalha moderno?
Carpinejar – É o canalha que é transgressor na linguagem e conservador nos hábitos, mas que luta contra o preconceito, que não acha que as pessoas devem ser julgadas pela aparência.
Quem é o canalha?
Carpinejar – O canalha é aquele que seduz com o feminino hoje. Aquele que não tem vergonha de chorar, de se emocionar. Não que ele seja um chorão, um piegas derramado. Um canalha contido, só que ele é transparente, invisível. A mulher se apaixona por ela mesma. Aí que está a força do canalha. Como a mulher vai se recusar? É impossível se recusar. O canalha não se despede, pode sempre voltar, ele não termina relacionamento, ele acaba de uma certa forma confundindo e ele seduz a qualquer momento e não espera a noite pra caçar. Eu acho que essa é a diferença mesmo. Ele é a própria caça. Ele se oferece ao sacrifício.
O canalha é um homem cheio de qualidades…
Carpinejar – Ele tem esse talento para antecipar possíveis críticas, de desarmar visões totalitárias, de buscar o avesso das coisas. E, principalmente, particularizar o elogio. Uma mulher sempre acredita que o homem não presta atenção naquilo que ela fala. O canalha devolve toda a memória que a mulher pensa.
Com um livro de crônicas vencedor de prêmio, o gênero vai se fazer mais presente?
Carpinejar – Eu gosto muito de pensar que como eu não tenho talento, nunca me falta talento. O escritor se delicia com a própria falência. O escritor tem essa vocação infantil. Dá um barbante, um metal, um cano e ele vai criar um brinquedo ali. O que eu vejo é que a crônica está me exigindo mais e a poesia, como é muito mais relâmpago, muito mais momento, muito mais intensidade, eu tenho feito mais lentamente e a crônica tem se esparramado, mas a poesia não vai deixar a crônica arrogante.
Há, de um modo geral, uma depreciação da poesia, ouve-se muito que poesia não vende como romances?
Carpinejar - Enquanto ainda dizem que a poesia não vende, eu fico tranquilo. Um dia vão chegar e dizer que o poeta se vende, aí é terrível. A poesia não vende, depende. Eu acredito que a grande revolução da leitura na poesia no Brasil seria se os poetas lessem os poetas. Os poetas só querem escrever e publicar o seu livro. Eles têm aquela angústia da confirmação e algo que eu acho um pouco danoso é que o poeta olha o outro poeta como um concorrente.
Falta corporativismo…
Carpinejar - Falta corporativismo na poesia. O poeta é muito egoísta no sofrimento, ele quer dizer que sofreu mais. Então a gente está na gincana pra ver que poeta sofre mais. A gente tem é que assumir a nossa alegria, porque alegria a gente não tem como assinar. A dor sim, a dor a gente sempre diz que é nossa, a alegria a gente diz que é do outro.
O poeta é um apaixonado?
Carpinejar – Bah! Põe apaixonado nisso! Poeta é passionalidade. O poeta vai desafiar a vida pra saber quem é mais poeta, se é o livro ou aquilo que ele viveu. Se ele dá um abraço numa árvore ele já está apaixonado pela árvore. Chega a doer. Ele é capaz de acariciar uma pedra para que ela receba musgo. É isso.
Em um artigo teu tu dizes que poesia não é desabafo.
Carpinejar – Desabafo é algo provisório. Desabafar não é poema. Vai colocar pra fora. Poema tu vai colocar pra dentro, é muito mais sexy, ou seja, é essa nossa capacidade de não sofrer mais do que as palavras. É respeitar o texto e entender que o leitor não tem a obrigação de sentir aquilo que a gente sente.
Lenda ou não, dizem que para escrever poesia é preciso estar sofrendo. Não pode ser só alegria?
Carpinejar - É nisso que eu acredito. Pode ser alegria. Se aproximar do carnaval, porque ele só escreve seus melhores poemas no dia de finados? A gente pouco valoriza aquilo que nos desafia, a inquietude. Eu não entendo como alguém pode numa balada ou num bar acreditar que vai ser igual ao dia anterior. Há sempre a possibilidade do milagre, da surpresa do imprevisto. Desde que a gente fique atento a isso.
Ficar atento…
Carpinejar – É se emocionar. A gente quer planejar a nossa própria emoção. A gente está deixando pouco espaço justamente para errar. A gente não quer errar mais no casamento, no namoro, na amizade. A gente está tentando minimizar o erro e a gente perde todo o escândalo sensorial da própria vida.
As dores de amor sempre inspiraram poetas. O amor é a principal inspiração?
Carpinejar - Acredito que vai ser sempre a principal inspiração. A gente não precisa ser corno, ter dor de cotovelo, perder amor, porque senão tu começa a conspirar contra o teu sucesso amoroso. Tu passa a querer sofrer. O poeta não é um masoquista, quem gosta de apanhar, tudo bem, procura outras modalidades… (risos). Eu acredito que até pra sofrer a gente tem elegância.
Em uma entrevista tu disseste que não existe ex-amor. O amor, então, é sempre o presente?
Carpinejar – Costumo dizer também que amor não morre de velhice. De uma certa forma a gente vai tentar assassiná-lo. Em algum momento a gente vai se precipitar e abandonar ou por um bom motivo ou por um péssimo motivo. É muito fácil reviver uma lembrança porque a gente sempre tem imaginação. Mas eu chamaria atenção pra saudade, porque a saudade engana. A saudade é a única mentirosa que eu acredito porque ela torna tudo melhor.
Existe mesmo no mundo dos poetas a musa inpiradora que tanto badalou Vinicius de Moraes?
Carpinejar - Eu acho que o Vinicius de Moraes… era lésbico. Ele amava as mulheres em si. Não tem outra explicação. A gente fica sempre projetando a musa. Se é pra ter musa, eu aceito. Mas o poeta tem que ter a mesma igualdade de direitos de um fotógrafo e um pintor. Não pode ser considerado um tarado se convidar uma mulher pra posar para um nu artístico, pra escrever um poema. Se acontecer isso, tudo bem, eu acredito na musa…
Como surgem as palavras em ti?
Carpinejar - Ninguém sai de si por conta própria. É minha teoria dos escombros. Ninguém sai dos escombros. Precisa pedir ajuda. É algo na outra pessoa que desperta em ti algo que tu tinha esquecido. Tanto a poesia quanto a crônica é contato. É olhar o outro para se reencontrar. É observar o que está acontecendo e pensar, de repente tu olha uma bicicleta vermelha e tu lembra da tua bicicleta vermelha, aí tu lembra que tinha freios nos pedais, tu pensa que de repente tua vida é feita de freios nos pedais. Isso te torna diferente.
Livro novo?
Carpinejar – O livro do twitter, que é twitter.com/carpinejar. Reuni meus aforismos, uns 400. Eu não falo no twitter: eu estou acordando. Eu acho que tô lá para incomodar, eu espero que um dia alguém diga: abaixe o volume do teu twitter, a gente não consegue mais dormir!!! É isso.
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*Publicada na edição de 1 de novembro de 2009, ABC Domingo